A poupança como base do Crédito Imobiliário
A possibilidade de os recursos da caderneta de poupança destinados ao crédito imobiliário cumprirem a exigibilidade do governo daqui a dois ou três anos, conforme vem anunciado representantes da Abecip – Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, traz para o setor o risco de uma possível queda bruta dessa fonte.
A destinação de recursos para alimentar o SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) cresceu de forma acelerada. Nos últimos oito anos, o montante saltou de R$ 1,77 bilhão, em 2002, para os atuais R$ 50 bilhões previstos pela Abecip até o mês de dezembro deste ano.
Se calcularmos um crescimento desse volume em torno de 10% a 20%, teremos o investimento de R$ 65 bilhões a R$ 80 bilhões até 2013. A partir de 2014, porém, poderemos ter de retornar aos patamares de 2007, quando foram destinados pouco mais de R$ 18 bilhões para a aquisição e a produção de novos imóveis. Isso porque os bancos privados passarão a investir somente o montante de retorno dos valores captados. Cabe lembrar aqui que a caderneta de poupança continua surpreendendo a todos tendo neste ano um incremento líquido nunca visto.
Essa queda pode gerar inúmeros impactos no mercado imobiliário, principalmente quanto ao volume de atendimentos com financiamento para a compra de imóveis, com juros e prazos adequados. Isto é o que podemos deduzir, visto que os parâmetros da economia em geral permitem estimar para os próximos anos um crescimento mínimo do PIB (Produto Interno Bruto) de 4,5% ao ano, e a quase certa manutenção do crescimento do mercado de crédito imobiliário.
Talvez isso não signifique aumento das taxas praticadas pelos agentes financeiros na concessão de crédito tanto à produção quanto à aquisição, mas poderão ser criados critérios mais rigorosos que os atuais na avaliação desses créditos. Por outro lado, é sabido que para os bancos as operações com garantia imobiliária são mais atrativas para incrementar seus ativos e, consequentemente, valorizar suas ações.
No Brasil, o crédito imobiliário precisa de estímulos constantes e permanentes, pois há um déficit habitacional a ser solucionado, além da necessidade de atender o crescimento vegetativo anual, estimado em mais de 1 milhão de domicílios.
Só temos duas fontes de recursos para o financiamento: a poupança e o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), e esse último já é responsável por atender aproximadamente 70% de todo o mercado, principalmente para famílias de mais baixa renda.
Agora se torna mais do que necessário intensificar os debates acerca de fontes alternativas de recursos para o setor imobiliário e estimular o mercado de securitização com lastro imobiliário, que ainda é muito pequeno. Atualmente, a oferta de títulos registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) emitidos como CRI (Certificados de Recebíveis Imobiliários) é de menos de 1 bilhão – volume acumulado de janeiros de julho.
Deve-se lembrar, sempre, que a construção civil e imobiliárias sofrem com as oscilações e mudanças de regras e dependem de uma série de fatores para o seu sucesso.
Esse segmento exerce preponderante papel social e econômico para o País. Devemos manter o equilíbrio do crédito, pois sem dinheiro não há como produzir imóveis, gerar empregos e renda.
(Celso Petrucci é economista-chefe do Secovi-SP, diretor-executivo da vice-presidência de Incorporação Imobiliária do Sindicato e membro titular do Conselho Curador do FGTS.)
Fonte: Portal ImovelWeb