Intervenções urbanas para a Copa precisam ser sustentáveis

Intervenções urbanas para a Copa precisam ser sustentáveis

A Federação Internacional de Futebol (Fifa) mantém uma extensa lista de exigências às quais os estádios das cidades-sede devem se adequar até o começo dos jogos da Copa. Uma delas está relacionada ao Green Goal, programa de sustentabilidade que prevê, em linhas gerais, a administração racional e eficiente da água e dos resíduos gerados, a economia de energia e o uso de sistemas públicos de transporte, projetados, inclusive, para o consumo eficiente de combustível. Para atender às recomendações ligadas diretamente à gestão municipal, o governo soteropolitano criou o projeto Salvador Sustentável – Copa Verde.

“Trabalhamos com um tema estratégico, que é a mobilidade urbana. A partir da implementação de uma rede integrada de transporte e, em particular, o BRT [Bus Rapid Transit – trânsito rápido por ônibus], criaremos uma alternativa viável para a população, possibilitando às pessoas deixarem o carro em casa e utilizarem o transporte público, que será mais barato e mais rápido”, afirma o coordenador do Escritório da Copa do Mundo da FIFA 2014 (Ecopa), Leonel Leal Neto.

O BRT compreende um conjunto de vias exclusivas para ônibus, que interligará as regiões do Centro Histórico, Iguatemi, Aeroporto, Rodoviária, Terminal da Lapa e Estação do Metrô, no acesso Norte (BR-324). O projeto pressupõe um sistema integrado de transporte, que oferece vantagens ao usuário, como a redução dos tempos de embarque e desembarque – em razão do grande número de portas dos veículos e da existência de plataformas niveladas ao piso do ônibus -, além do pagamento fora do veículo, estações fechadas e seguras e mapas de informação em tempo real. Desenvolvido pela Secretaria Municipal de Transportes e Infraestrutura (Setin), o projeto básico do novo sistema deve ficar pronto até o mês de março.

O engenheiro, arquiteto e urbanista alemão Carl Von Hauenschild faz ressalvas em relação ao sistema de ônibus rápido: “o BRT do aeroporto até a estação de metrô do Acesso Norte pode reduzir o número de carros individuais circulando nas avenidas Paralela e Bonocô, mas nas demais direções não ajuda”. Ele afirma que “este recurso  não é aproveitável para um transporte de massa (metrô) após o esgotamento da capacidade de transporte do BRT em 15 anos, conforme a Setin, então, não é um investimento sustentável a médio e longo prazo”.

Lançado em 2000 e com um investimento acumulado até agora em R$ 1 bilhão, o metrô de Salvador, que dos 41 quilômetros de extensão iniciais, terá apenas 6,5, deve ser uma das opções de transporte durante a Copa. Segundo Leal Neto, “a expectativa é de que este ano a fase de construção física fique 100% pronta e, ainda no primeiro semestre, o metrô entre em fase de testes”.

O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano para a Copa, que reúne todos os projetos de intervenção urbana inseridos nas dimensões econômica, social, ambiental e cultural, será divulgado pelo Ecopa na segunda quinzena de fevereiro. Segundo a assessoria de comunicação do escritório, a formatação física do projeto ainda não foi finalizada e sua pasta está em fase de validação pelos governos municipal, estadual e federal e por investidores. O documento define as obrigações dos agentes inseridos nas atividades preparatórias para o mundial e contém o cronograma e os relatórios necessários para que a cidade cumpra os compromissos assumidos coma  FIFA. Leal Neto assegura que “em 2012, as coisas estarão praticamente prontas, para que em 2013, tenhamos a Copa das Confederações”.

Ações e locais estratégicos

A melhoria da iluminação pública, o estímulo ao uso de biocombustíveis, a delimitação do percentual de ocupação do solo e o monitoramento do ar estão entre as ações sustentáveis previstas pelo Ecopa. No final do ano passado, a Secretaria de Planejamento do Estado lançou a Rede Automática de Monitoramento da Qualidade do Ar, que teve um investimento de R$ 15 milhões. Desenvolvida pela Cetrel, empresa de proteção ambiental, com patrocínio da Braskem e apoio do Governo do Estado da Bahia e da Prefeitura Municipal de Salvador, a ação já iniciou a implementação de estações de monitoramento de ar na cidade.

Além dessas iniciativas, a Prefeitura prevê intervenções mais intensas em áreas consideradas estratégicas para a Copa. A principal delas é o entorno da Arena Fonte Nova, que compreende a região que vai do bairro de Nazaré até o Comércio, o Porto de Salvador, onde o fluxo turístico decorrente da chegada de cruzeiros costuma provocar transtornos, o Centro Histórico e a Baía de Todos os Santos. Nessas localidades, serão realizadas, dentre outras ações, obras de microdrenagem – sistema responsável por retirar a água pluvial dos pavimentos das vias públicas -, sinalização turística e recuperação de calçadas. De acordo com Leal Neto, os projetos relacionados à Copa em andamento na capital baiana somam US$ 1,2 bilhões.

Nova Fonte Nova gera polêmica

Toda a infra-estrutura planejada para a Copa gira em torno do lugar onde as emoções dos jogos serão vividas, de fato: a Arena Fonte Nova. Sua construção está em fase de remoção, reciclagem dos materiais de demolição e terraplanagem. De acordo com a assessoria de imprensa da Odebrecht, que junto com a OAS, BNDES e Banco do Nordeste forma o consórcio que pagará a obra, orçada em R$ 519,7 milhões, “todo o material resultante da demolição do antigo estádio passou pelo processo de reciclagem”.

Ainda segundo a mesma fonte, “ao todo, foram gerados aproximadamente 77,5 mil toneladas de materiais, que foram 100% reutilizados. De todo o material britado, 90% será reaproveitado na própria obra e o restante, destinado a outras obras na Região Metropolitana de Salvador”. O projeto da arena atenderá ao programa Green Goal da Fifa, adotando medidas como economia de água, reuso do esgoto tratado, aproveitamento da água da chuva, diminuição e reciclagem do lixo gerado, sustentabilidade energética, ventilação e iluminação natural.

Von Hauenschild, sócio-diretor da Urplan, uma das empresas de planejamento urbano que apresentou proposta para a nova concepção do estrutural do estádio Otávio Mangabeira (Fonte Nova) e seu entorno, aponta aspectos não sustentáveis no projeto escolhido pelo governo estadual. De acordo com o arquiteto, a Fundação Instituto de Administração, instituição que avaliou as propostas, não considerou “as torres laterais (no local do Balbininho e no lado do grotão das piscinas), que todos os outros propuseram para gerar viabilidade econômica do empreendimento, como incompatível com a legislação do tombamento do patrimônio histórico, paisagístico e cultural e o PDDU – Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano”.

Defensor da construção de uma arena poliesportiva, reformando as estruturas existentes no antigo estádio, o urbanista afirma que “o governo não quis a preservação da vila olímpica da Fonte Nova, sua modernização e reforma. Ele queria defender o futebol comercial, midiático e com fim lucrativo da FIFA contra os interesses da cidade e da população a qualquer custo”. Leonel Neto argumenta que a nova Fonte Nova “será uma arena multiuso, com restaurantes, centros de convenções, espaços para eventos simultâneos, lojas para venda de produtos, o que significará um equipamento público que poderá funcionar independentemente da existência de jogos”.

Entrevista com Carl Von Hauenschild

– A Urplan apresentou ao governo um projeto de reforma da Fonte Nova que custaria R$ 176 milhões, somente para construir o estádio e, com shopping, ginásio, centro aquático e centro de convenções, custaria R$ 470 milhões, menos do que será investido na Arena Fonte Nova. Como você avalia a opção do governo pelo atual projeto?

Apesar de o manual da FIFA admitir estádio olímpico (poliesportivo), definiu em off uma diretriz que privilegia as “arenas de futebol” (monoesportivas). Nossa intenção ao enviar uma Proposta de Manifestação de Interesse (PMI) foi demonstrar que a vila olímpica (estádio poliesportivo, centro aquático e ginásio) da Fonte Nova é viável, traz um beneficio maior para a cidade, é compatível com as normas da FIFA e permite agregar áreas comerciais que rendem tanto que pagam o investimento como um todo e ainda geram uma modernização de todos os equipamentos, além de gerar praças por cima do sistema viário arterial que beneficia tanto Nazaré, quanto Brotas e o Dique. O governo do Estado não queria beneficio real para a cidade, queria satisfazer a FIFA de qualquer jeito em detrimento do interesse público e da cidade.

Conforme a PMI, os critérios de avaliação eram a “sustentabilidade econômico-financeira, legal e ambiental”. Se a Fundação Instituto de Administração, instituição que avaliou as propostas, tivesse aplicado esses critérios, nenhuma outra proposta teria passado em função do tombamento do Dique do Tororó e as encostas do seu entorno. Quanto à sustentabilidade econômico-financeira, nossa modelagem tinha a melhor viabilidade, exigindo um investimento próprio somente de R$ 32 milhões pelo Estado, que agora pagou R$ 52 milhões (150% disto) somente para a implosão/demolição, e pagará R$ 1,61 bilhão em 15 anos, fora os investimentos do entorno.

– Por que você defendeu a reforma da Fonte Nova ao invés da demolição ou implosão do estádio?

Primeiro, a vila olímpica da Fonte Nova tem um alto valor histórico, cultural, social e funcional urbano na cidade de Salvador. É a primeira obra de equipamento social de grande porte feita em 1951, concebida pelo maior planejador da cidade em 1947/48, Mario Leal Ferreira, e pelo 1º plano diretor da Salvador, de 1949. É também a primeira grande obra de concreto armado da cidade, numa integração perfeita à paisagem do Dique e sua topografia. Tombada como conjunto urbanístico junto com o Dique em 1959.

O estudo de análise estrutural demonstrou que toda a estrutura vertical estava em perfeito estado e podia ser adaptada com baixo custo às novas demandas de um estádio moderno, trocando a estrutura horizontal por uma estrutura pré-moldada, da mesma forma como o estádio olímpico de Berlin (de 1935) foi reformado para a Copa de 2006, na Alemanha. Tudo por um valor muito mais econômico, sem implodir um equipamento público com um valor imobiliário de cerca R$ 80 milhões, que custou R$ 52 milhões e permitia um obra muito mais rápida e muito menos impactante ao meio ambiente.

– No manual da FIFA para a Copa de 2014, existe o programa Green Goal, que exige ações sustentáveis na construção dos estádios, bem como nas intervenções urbanas, como o uso de sistemas públicos de transporte. Em que estágio Salvador se encontra em relação a essas diretrizes?

Não existe, até hoje, além do funcionamento do metrô entre o Acesso Norte e o Campo da Pólvora, nenhum outro sistema de transporte coletivo projetado para chegar à nova Fonte Nova. O projeto de urbanização do entorno e o estudo de impacto de vizinhança (EIV) ainda não foram apresentados, apesar de serem exigidos pela FIFA e pelo BNDES, para saber como vai ficar o movimento do público antes, durante e depois no meio deste sistema viário.

Deve haver nas saídas e entradas de um estádio áreas livres para caber a quantidade de público que cabe em sua arena. Na nova Fonte Nova não cabe. Num grande jogo tipo BA-VI tinha arquibancadas cheias e cerca de 20 a 30mil pessoas fora do estádio fazendo a festa durante o jogo. Onde caberão estas pessoas? Onde caberão os inúmeros ônibus que esperam no fim do jogo os torcedores para embarcar? Nada está previsto neste sentido. No fundo, esta arena está preparada somente para a Copa, mas não para o pós-Copa e para os tipos de eventos futebolísticos tradicionais da cidade.

– Quais são os pontos mais críticos da cidade de Salvador, em termos de infra-estrutura, a serem melhorados para a Copa de 2014?

Para a Copa não correr risco de inundações, ainda é preciso investir muito em drenagem e separação de esgoto da rede de macro-drenagem, tendo em vista que junho/ julho podem ter grandes concentrações de chuvas (até 300 a 420mm/mês nos últimos 25 anos), isto em todas as áreas de circulação de turistas. Tapagem dos cursos d’água não é a solução para isto.

Além disso, é preciso qualificação dos pontos turísticos da cidade, treinamento de pessoal para atendimento e receptivo, geração de novas praças para Fan Fests nos bairros e junto aos atrativos turísticos da cidade, acessibilidade ao estádio e às áreas de treino dos diversos pontos da cidade, inclusive com chuvas, adequação do terminal de passageiros do aeroporto para a demanda e do porto para os cruzeiros, prevenção e treinamento para emergências e segurança publica.

Projetos de Estádios para Copa do Mundo 2014

Manaus/AM - Vivaldão

Manaus/AM -Vivaldão

Cuiabá/MT - Verdão

Cuiabá/MT – Verdão

Belo Horizonte/MG - Mineirão

Belo Horizonte/MG – Mineirão

Rio de Janeiro - Maracanã

Rio de Janeiro – Maracanã

Brasília/DF - Mané Garrincha

Brasília/DF – ManéGarrincha

Salvador/BA - Fonte Nova

Salvador/BA – Fonte Nova

São Paulo/SP - Morumbi

São Paulo/SP – Morumbi

Natal/RN - Estádio das Dunas

Natal/RN – Estádio das Dunas

São Paulo/SP - Corinthians

São Paulo/SP – Corinthians

Fortaleza/CE - Castelão

Fortaleza/CE – Castelão

Porto Alegre/RS - Beira Rio

Porto Alegre/RS – Beira Rio

Recife/PE - Arena

Recife/PE – Arena

Curitiba/PR - Arena da Baixada

Curitiba/PR – Arena da Baixada

Published On: janeiro 27th, 2011Categories: SustentabilidadeTags: , ,

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Sobre o Autor : JRuiz Admin

One Comment

  1. Intervenções urbanas para a Copa devem seguir padrões de sustentabilidade | Finance Planet 28 de janeiro de 2011 at 04:11 - Reply

    […] Intervenções urbanas para a Copa devem seguir padrões de sustentabilidade […]

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